segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A terceira década

A sociedade informativa-opressiva-globalizada na qual vivemos permite sonhos? Sempre quis acreditar que sim. Porém, me parece que sonhos tem data de validade e ela parece estar na terceira década da vida. Pessoas mais velhas (leia-se qualquer um com mais de 20) muitas vezes aconselham as pessoas a desistirem de seus sonhos e tomarem um rumo que "dê mais futuro". Com essa expressão, eles querem dizer, alcançar estabilidade financeira.
Eis a bandeira da classe média: estabilidade financeira. O medo de ficar pobre e o temor de perder o direito de sentir os prazeres do consumismo assusta todos os lares das famílias que habitam a região mediana da estratificação social. Para alcançar esse tão aclamado objetivo, vale tudo. E nesse "tudo" estão incluídos os sonhos, que hoje em dia parecem ser "coisa de rico".
E no meio desse turbilhão, aqui estou eu, seguindo o rumo para ser professor de história. Reverenciado no Japão, olhado com descaso no Brasil. Pai, irmã, cunhado, avô... todos gritaram em uníssono: "Faça direito!". Porque direito?
Se formar em direito é o melhor primeiro passo para passar em concursos para nível superior de tribunais e ministérios. E esses empregos públicos são a "maior realização possível" de um indivíduo de classe média. Salários altos (para o nível das classes C e B) e uma estabilidade financeira próxima à perfeição. Quem conquista um emprego desse tipo, muito dificilmente será demitido (pela legislação, só em caso de falta grave) e em alguns cargos ele poderá apenas ser aposentado ( os chamados cargos vitalícios).
Conheço várias pessoas da minha idade (18 anos) que decidiram fazer o curso de direito com a intenção de conquistar um emprego público. Qual? Qualquer um que garanta renda "alta" e estabilidade. Pessoalmente, acho isso desesperador. Quando jovens deixam de seguir seus sonhos e buscam logo cedo apenas a garantia da manutenção da sua renda familiar, há algo de muito errado com essa sociedade.
A doutrina "mecanizadora" capitalista está transformando não apenas o proletário, como todas as outras classes sociais em "robôs". Pensar, sonhar, lutar, são todas ações proibidas, a não ser que seja em relação ao próximo produto que se deseja comprar.
A ideia para escrever sobre isso surgiu de duas conversas que tive com pessoas de 25 anos. A primeira foi quando fui me alistar no exército, a segunda na fila do elevador do CFCH. Não citarei nomes em respeito à privacidade dos dois. A conversa, nos dois casos, foi sobre o futuro, "o que fazer da vida". A conclusão de ambos foi clara: o importante é dinheiro. Eles ficaram constrangidos de dizer para desistir de meu sonho, pois o defendia de maneira calorosa. Porém, deixaram claro que iria enxergar a situação de maneira diferente quando estivesse com meus "20 e poucos anos".
Pela conversa com jovens de minha idade, percebo que ainda existem alguns que lutam contra isso, que seguem em frente, rumo aos seus sonhos. Penso que é disso que o mundo precisa, de pessoas que ainda tem coragem, apesar de todas as dificuldades, de tentar seguir a profissão para qual pensam que vão adicionar mais a comunidade em que vivem e /ou se sentirem mais realizados ao exercerem seus trabalhos.
É isso que tento fazer, dia após dia, mas, "remar contra a maré", está cada vez mais difícil, talvez só aguente até fazer uns "20 e poucos anos".

Um comentário:

  1. Sonhos desaparecem após vinte e poucos anos? Particularmente não vejo os grandes homens da humanidade pensando dessa forma. Isso são para os ordinários, para os velhos de espírito. A juventude perdura naqueles que se têm como destemidos, indomáveis e sentem que a realidade é insuficiente para suas ambições: sonham, portanto.
    Sinceramente não desejo nunca acordar e com a espiada que dei, duvido que você também acorde. =]

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